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terça-feira, 21 de outubro de 2008

A nova geração do humor brasileiro.

O humor passa por um momento de amadurecimento. O gênero “comédia stand up”, cada vez mais popular no Brasil, possibilitou a apresentação de ótimos textos, sem a necessidade de grandes investimentos em recursos técnicos. É a vitória do conteúdo. Um microfone na mão e muitas idéias na cabeça: os elementos necessários para uma encenação divertida, irreverente e improvisada. Redigir tais roteiros, contudo, exige velocidade de raciocínio, estudo e conhecimento multidisciplinar. Hoje, as piadas estão datadas, cada vez mais temporais e contextualizadas com o cenário sócio-político e econômico. A opinião pública, enfim, despertou para o humor inteligente.

Os formatos televisivos têm seu ciclo de vida. Eles envelhecem e o público se renova. Isso não quer dizer que o humor de Chico Anysio esteja fadado ao esquecimento. As novas gerações, todavia, desconhecem cada vez mais o trabalho deste grande humorista. O fato de estar fora do ar amplia ainda mais este ostracismo. Há ainda os programas que não se reinventaram com o tempo, como o caquético “A Praça é Nossa”. A estética, o roteiro, o cenário e as piadas cheiram a naftalina. O enredo insiste em privilegiar a sexualidade, a homofobia e as piadas de duplo sentido.

“Zorra Total” também investe em uma estrutura semelhante à da Praça, com algumas vantagens: o amparo técnico da Rede Globo, cenários elaborados e um polpudo orçamento de produção. No elenco, grandes nomes da dramaturgia nacional. O resultado, contudo, deixa a desejar. Muito carnaval para pouco conteúdo. E pior: com público garantido e audiência em alta.

Um dos representantes da nova geração do humor brasileiro é o “Pânico na TV”. A versão televisiva do programa radiofônico estreou em setembro de 2003, aos domingos, na RedeTV!. Abrigada em um horário bastante disputado, inicialmente às 18h, a trupe de Emílio Surita começou a se destacar com a sua comicidade non sense. Perguntas indiscretas, quadros bizarros e intervenções esdrúxulas chamaram a atenção de um estrato até então marginalizado na programação dominical aberta: os jovens de classe ABC.

Desde sua criação, o trash passou a ser um dos elementos principais do “Pânico na TV”, uma atração declaradamente kitsch e grotesca. Por possuir um público altamente qualificado e formador de opinião, virou um retumbante sucesso comercial e atraiu anunciantes de diversos segmentos. Um filão de mercado que estava adormecido, concentrado nas TVs fechadas.

Atenta aos resultados do programa da RedeTV!, a Band importou da argentina os direitos de adaptação de “Custe o que Custar”, um formato que mistura jornalismo com humor. Fatos políticos, artísticos e esportivos são abordados de forma satírica e debochada. Apresentado por Marcelo Taz, Marco Luque e Rafinha Bastos, traz matérias que envolvem pessoas públicas, como políticos, celebridades e jornalistas, com perguntas pouco discretas e inconvenientes.

O foco do “CQC” é diferente do “Pânico da TV”. O primeiro opta por um um jornalismo irreverente e temporal, o segundo prima por factóides, sem qualquer compromisso com a verdade. O interessante, neste caso, é que cada um deles adquiriu sua identidade própria e audiência cativa.

Os humorísticos, enfim, se diversificaram e enriqueceram as suas pautas. O público também contribuiu para esta evolução. O brasileiro sempre teve o costume de rir dos seus problemas. Na maioria das vezes, zombou da política sem sequer saber que os verdadeiros palhaços não estavam no Palácio, mas sim atrás das urnas. Hoje, permanecemos rindo, mas com um pouco mais de discernimento. E as sátiras têm suas contribuições. Elas fazem com muita gente discuta e reflita sobre as questões sociais. Nem que seja para fazer graça. Parece piada, mas é verdade.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Dramaturgia em crise: a maldição do licenciamento.

A fase água com açúcar da dramaturgia da Band está com os dias contados. Depois de Floribela, Dance Dance Dance e Água na Boca, a emissora realizou uma pesquisa para saber o que o público feminino espera ver nas novelas da casa. O resultado mostrou que a maioria quer tramas com mais ousadia e atrevimento. Empolgada com sucesso da reprise de Pantanal, cujo importante ingrediente é o cenário rural associado à sensualidade, a Band comprou os direitos de adaptação de Passión de Gavilanes, romance colombiano produzido pela Telemundo, Caracol Televisión e RTI.

Inversamente proporcional aos investimentos na dramaturgia nacional, a criatividade dos enredos enfrenta uma séria crise de conteúdo. Até mesmo a Record, que passou a investir pesado na produção brasileira, viu-se tentada com a possibilidade de expandir a exportação de suas novelas: assinou um acordo com a rede mexicana Televisa para adaptação de obras de sucesso mundial, como Rebelde. O mesmo recurso já foi utilizado pela Band, que importou da Argentina os direitos de Floribela e obteve excelente faturamento, além do licenciamento de dezenas de produtos.

Depois de amargar baixos índices de audiência com a insossa Água na Boca, a Band aposta suas fichas em um investimento em que as prerrogativas não parecem muito otimistas: a produção nacional de mais um enlatado. Passión de Gavilanes, cujos direitos foram recém-adquiridos, já foi exibida pela RedeTV! com o título Paixões Ardentes. Em sua primeira exibição no Brasil, estreou com a responsabilidade de, ao menos, manter os números de Pedro, o Escamoso. O resultado foi desastroso. A obra, escrita por Julio Jiménez e dirigida por Rodrigo Triana, foi interrompida muito antes de concluir o seu ciclo previsto.

Na RedeTV!, o folhetim estreou em 29 de março e encerrou em 25 de junho de 2004, sem ao menos apresentar o desfecho dos personagens. O corte gerou a revolta dos telespectadores. Mais de cinco mil e-mails chegaram à emissora de Alphaville. Diante da baixa audiência, menos de 1 ponto, e da dificuldade de comercialização, a diretoria suspendeu irrevogavelmente a exibição de Paixões Ardentes.

A versão brasileira de Passión de Gavinales será adaptada por Ecila Pedroso e poderá suceder Água na Boca. O elenco está sendo escolhido pelo diretor Del Rangel. Segundo o site “Estrelando”, nas últimas semanas foi realizado um teste com 250 atores para a seleção dos protagonistas.

Das onze telenovelas atualmente em cartaz na Globo, SBT, Record, Band e CNT, cinco são inéditas, uma é remake e quatro são reapresentações. Para os próximos meses, estão programadas as gravações de Rebelde e Passión de Gavinales. Nos bastidores do SBT comenta-se que mais uma obra argentina poderá ser adaptada com atores brasileiros. Enquanto isso, novos talentos são podados, grandes autores aposentados e importantes acervos ressuscitados, como o arquivo radiofônico de Janete Clair, adquirido por Silvio Santos.

Chacrinha, ainda nos primórdios da teledifusão, postulou: “na TV nada se cria tudo se copia”. O Velho Guerreiro tinha toda a razão, mas os tempos mudaram e a globalização chegou. A moda agora é pagar pela adaptação. É a imitação sem culpa, cultuada, sem vergonha e de papel passado.